O diário visita o diário passado

30.10.17
Quem quiser, pode vir comigo. Mas é melhor trazer um agasalho. Vamos ali ao ano de 2001 visitar o mês de outubro, no dia 27, quando ele esteve, cheio de frio, a ver um jogo de futebol em Paços de Ferreira. Vamos procurar uma cicatriz.
Sim, tem futebol em que o jogo tira a baliza do mapa, mas naquele jogo não, naquele a baliza fazia parte do caminho. Por lá passaram seis golos. A cicatriz, bem a cicatriz está no mesmo síto, quem desce um palmo pela perna esquerda, já em território do músculo femoral, arraçada de pastor alemão, como sempre.

Frankfurt, ida

24.10.17
Uma das grandes vantagens dos aeroportos internacionais é a possibilidade de encontrar pessoas, e uma das grandes vantagens de encontrar pessoas no mundo desconhecido é a possibilidade de encontrar pessoas portuguesas, como em Frankfurt, numa paragem de seis horas entre aviões.


Travei a leitura de um parágrafo de um extenso livro com a ponta do dedo indicador direito para deixar passar o comboio de informações atrelado à voz da funcionária do aeroporto, difundida através de um esclarecedor sistema de áudio, sobre voos e tabelas horárias. Quando me vi a embarcar de novo na ficção, levantando o dedo, o serviço informativo atropelou o livro para nos dizer que uma carteira fora encontrada algures e pediu ao passageiro pelo nome que a fosse recuperar. Do nome, adquiri conhecimento suficiente para saber que não era o meu, sem ter percebido por quem chamava o aviso. Em linha de vista, e em plano americano, apareceu um rapaz vestido de preto com o nome Dagobert escrito na camisola. Também não era ele.

Procurarei escandir da melhor forma o passo seguinte: pela segunda vez entre as seis horas de espera, o tempo acabou por me conduzir, pelo meu próprio pé,  à casa de banho do homens e pela segunda vez uma mulher dentro de um uniforme verde limpava o chão como se nada fosse, circundada por urinóis pejados de utilizadores em trânsito fisiológico. E assim se acrescentou mais um capítulo ao conceito de normalidade.



O SOL EM MARCHA

30.10.15
Nenhum piano saiu ontem à noite, infelizmente. Dava jeito ao vinho tinto ter com quem falar sobre música de colarinho branco, em vez de ficar fechado à chave em casa por uma rolha de cortiça, engarrafado, a velar espelhos e saxofones, num altar abispado, que chamava por nós em lume brando.
Ficou o altar para melhor oportunidade, o piano verteu o seu próprio som para dentro de um copo com pingos de pauta, e anoiteceu alguém em vez da noite, que desperta, sai da cama, desaparece do escuro, afogueia as horas por volta das sete da manhã, um dia acorda, lava a cara com água da chuva, vai trabalhar despenteado, come um pão solteiro pelo caminho, toma café em frente a duas mulheres vestidas, põe os olhos nos jornais, não vê ninguém feliz em nenhuma parte do mundo, tira os olhos do corredor da morte, apanha o metro no intestino do chão, trabalha resignado numa mesa resignada, come vaca morta ao almoço, bebe gás castanho escuro, caga entretanto a última parte da véspera, trabalha por trabalhar, os jornais já estão a morrer ao ir embora, enfia-se no chão, emerge perto de casa, caminha os passos que faltam, compra rosas podadas para oferecer à mulher, é um animal doméstico enquanto homem , compra vinho manso, cor de salmão, faz planos com penetração, faz exercícios com a língua, finge um orgasmo, o dela, está a chegar outra vez à noite, vai comer o que houver no prato, deve ser peixe afogado em azeite no forno, vai adormecer num cama fria, dormir em ponto morto, como a vida quiser, ele quer, o dia.

TUDO ISTO PARA DIZER QUE UM LIVRO...

25.4.15
O arrumador de carros contava as últimas do seu dentista, ao fim e ao cabo um arrumador de dentes postiços, dizia-me ele, desdentado, destapando a inabilidade de arrumador do dentista, ou então pondo a nu a falta de cálcio da sua pequena história, inventada só para mim, à espera de que me caíssem cinquenta cêntimos de uma mão e um cigarro da outra, mas eu nada, nem uma nem duas, mais atento à falta de comparência dos incisivos do que ao rigor das palavras que ele assobiava, porque lá está, quanto menos marfim, menos latim.

Tem tudo isto a ver com o escritor cubano Reinaldo Arenas, com o período da sua prisão no Morro, onde, para além de tudo o resto, era a fome tanta e ele, certa vez, no escuro, ao dar com um saco cheio de pães, mordeu forte e feio, mas de tal forma que partiu dois incisivos. Às mãos da ditadura, regime arrumador de pessoas, passou a ter nenhum motivo para sorrir, mais um.  
O arrumador, que me apareceu do tronco de uma  árvore como quem vem do passado, lembrou-me de andar com livro para trás. A página 288. A página 288. Tinha jurado não me esquecer dela, do último parágrafo que ela deixou entrar. E que dizia, a propósito da entrada no Morro: ”Em O Mundo Alucinante eu falava de um frade que passara por várias prisões sórdidas (incluindo o Morro). Quando ali entrei decidi que dali em diante teria mais cuidado com o que viria a escrever, porque parecia condenado a viver no meu próprio corpo o que escrevia”.
Antes que Anoiteça. Retirei as linhas anteriores de um livro com tanto passado e mais este. Veio pelo correio. Chegou numa sexta-feira. O livro impossível, que eu procurei no Porto durante uns bons dez anos e que fui encontrar onde menos esperava. Muito obrigado Dora

A morte do Pintassilgo #9

15.4.15
Fim.
A ave morreu, com penas e tudo, trinchada ao longo de quase 900 páginas. E agora está embalsamada, com toda a palha que tem lá dentro, deitada sobre um alinhamento de livros, porque na estante não cabe mais ninguém. Lembrete: comprar outra estante. Por outro lado ganhei um novo habitante da minha memória, Theo Decker, personagem principal, narrador, perturbado, antiquário, humano da cabeça aos pés.
PS: Mora lá em baixo uma música muito linda.



O Diário d´O Pintassilgo #8

7.4.15
Gostaria de ter entrado mais cedo no Pinhão, de onde é natural, e residente, a senhora Aurora Santas Noites. Aurora faz parte dela desde que se conhece. Santas Noites veio com o matrimónio, o que faz todo o sentido, e ainda bem que assim é, fruto do apelido entusiasmante do marido.

Aurora Santas Noites tem um filha muito bonita, diz, cujo rosto está na Quinta Avenida, em Nova Iorque, é modelo fotográfica a rapariga. E tem um filho, o melhor piloto de carros do mundo, diz, e diz que o impediu de jogar à baliza no FC Porto porque tem medo de aviões, ele podia cair, e ela não ia aguentar. Assim o filho ficou-se pela trave e pelos postes do Alijó e arredores, voou rasteiro.
Encontrei Aurora à dez da manhã, ao fim da ponte.

Depois de Aurora, a jornada serpenteou quintas e vinhos, fez tangentes, não foi lá. Quedou-se pela beira do rio e na beira do rio encontrou o país mais barato, mais antigo, mais combustível, com cinquenta litros de gasóleo pela melódica quantia de três euros e quarenta cêntimos.


Durante o dia inteiro o Douro não parou de bater à porta. O Pintassilgo ficou em casa, coitado, tão longe tão longe desta vista.


Para fechar o relato, duas réguas sobre o rio, entre as margens.


Falta só dar de comer aos ouvidos. Bom proveito ;)

Diário Ornitológico #7

7.4.15
Olhos melhor informados saberão do que eu não sei sobre a obra da pintora Armanda Passos, exceptuando algumas informações que as últimas semanas puseram diante de mim. Primeiro, que o Major Valentim fazia de gala ter em sua posse uns quantos quadros. E segundo, que esta serigrafia sobre tela ocupa uma das paredes do Hospital de Dia do IPO do Porto, coberta por um acrílico à prova de azares.

É um homem ou uma mulher? Uma galinha ou um pato? Não estou certo.

Pus-me a desfiar o livro (O Pintassilgo) em cima do muro do Insituto, ao sol. E à sombra, num corredor de frases sobre esperança.
Lá em baixo, no sítio do costume, a sul do post, deixo os meus queridos Strand Of Oaks. Eles estão a tocar Plymouth, que é como quem toca o céu.


O diário do coiso #6

5.4.15
Calcadas quinhentas páginas, leitura feita a mais de metade do caminho, O Pintassilgo não se aborrece nem me aborrece. Morreu gente, anos passaram, duas cidades aconteceram, o adolescente Theo passou por isto e por aquilo. Aí, no decurso da narrativa, a pena da escritora não adormeceu.
O quadro de Carel Fabritius está em boas mãos.




O Pintassilgo anda a ser lido quando pode em Vila Nova de Gaia, terra de lombada farta, como a do livro, terra de terra, de muita terra, mas também terra de muito mar, de tanto mar.  Por estes dias de sol mandão as flores já espreitam quem lá vem.

  A maré deste domingo trouxe música feita à medida do meu anzol. Eu pesco.
 

O diário d´O Pintassilgo #5

2.4.15
O livro escolheu uma das mesas livres na rua do Mar, na Aguda.
Pediu um café, tomou um café.
Foi lido pelo sol durante duas horas. Também o vento passou por ele. Algumas crianças e a suas bicicletas meninas iam e vinham.
Pediu uma água lisa, bebeu a água lisa.
O livro escolheu ir embora dali às quatro da tarde. Conduziu-se para o ginásio. Treinou, suou, lavou-se. O livro só não foi ao ensaio na Casa da Música. Ficou a descansar no carro, em frente ao Bom Sucesso. Nem quis jantar o pão, as pataniscas e as moelas.
PS: a música de hoje é dos Tame Impala, Let it Happen, que cá voltará quando houver vídeo. Fica, como é costume, arrumado lá em baixo, o som.


O diário d´O Pintassilgo #4

30.3.15
A tradução volta e meia perde-se do livro, infelizmente. Lá voltarei às páginas mais perto da meia-noite.
A vida... quanto à vida esta foi uma segunda-feira gorda.
Um dia de folga muito bem calçado, que me assentou como uma luva. Levou bacalhau com broa, amigos, vinho branco, os 41 anos do Nuninho, teve uma sesta, filho, sogros, pais e ginásio.
E só o ginásio dava para um dia inteiro: espantei-me com a existência de boxers da marca Glhan Klaim e há homens que passam a gilete nas pernas no chuveiro, fiquei a saber.
Vai terminar o dia com Sufjan Stevens. O disco Carrie & Lowell já está no Spotify. Meti a música Fourth of July debaixo da fotografia. E agora vou tratar do Pintassilgo.



A muito bem arranjada (e barata) aplicação Babelia

29.3.15
Há cafés mais caros. O suplemento cultural do El País chega ao leitor - e julgo que a partir de agora em qualquer parte do mundo - pela via digital, sob a forma de aplicação, por 99 cêntimos. O conteúdo dispensa encómios. A forma é muito, mas mesmo muito, boa de ler.
Para primeira compra escolhi esta edição de 10 de Janeiro de 2015. Acontece neste número uma muy interessante entrevista ao Eduardo Mendoza, muito a propósito do primeiro livro dele, La verdade sobre el caso Savolta. Mais uma vez se confirma que no início de escritor está o sofrimento. Ele vem quase sempre daí.  Escolhi a capa do Mendoza por gostar do que ele me escreve e por nunca mais me esquecer de como li A Cidade dos Prodígios em quatro proveitosos voos entre Portugal e a Ucrânia.

Nesta edição o livro da semana é um livro "perdido" (e póstumo) de Antonio Tabucchi, Para Isabel.  Começa em Lisboa, no Tavares. Babelia tem isto tudo e tem muito mais por onde ir. Boas leituras.



O diário d´O Pintassilgo #3

28.3.15
Estes primeiros dias do romance da menina Tartt avançam e ele continua a ser a caldeira que a locomotiva do leitor exige. Ontem vi uma bicicleta amarela a desafiar as janelas do primeiro andar de um prédio e a passar por elas como se fosse normal uma bicicleta sonhar com o impossível.
Nada de mais, para quem, como eu, tem um Pintassilgo a servir de âncora dos dias. O livros até podem ir, mas se virmos bem as coisas, não vão, ao fundo. Interessantes tábuas de salvação.

 

O diário d´O Pintassilgo #2

28.3.15
Eu e a pessoa que manda em mim, a minha cabeça, estivemos esta tarde no Porto.
Para dizer a verdade estive lá mais eu do que ela. Ela anda a pensar em mudar de vida e eu não sei o que lhe diga. Ela é que manda. Mas adiante. Bebemos um belo café de saco num camarim da Casa da Música, comemos bolachas cor de trigo, falámos do tempo, da música, da Casa, e até fizemos metáforas com futebol à mistura.
Enquanto isto, no livro, há todas as partículas de pó no ar. Para já o livro está a saber tão bem como a primeira mijadela de um novo dia. Era bonito que ele continuasse a ser algo mais do que esse tesão matinal.


O diário d´O Pintassilgo #1

26.3.15
O que tiver de ser resolvido ficará para dia de coragem superior.
Entretanto entretenho o tempo livre com livros.
Ando azarado aos livros. Já encostei um Bolaño (Noturno Chileno) e um M.Tavares (Uma menina está perdida no seu século à procura do pai). Nunca tinha feito uma coisa nem outra. Ou ando muito exigente, ou muito impaciente. Ou então o problema é deles, que já os li em melhor forma.

Começo agora a medir outras 893 páginas. Um livro "sobre amor e perda, sobrevivência e capacidade de nos reinventarmos". Nem de propósito encontro O Pintassilgo, de Donna Tartt. Para memória futura, registo que hoje vi a Praça do Marquês de Pombal, no Porto, de um primeiro andar e a praça, pela primeira vez, não me pareceu uma casa de putas, uma churrasqueira ou um cemitério. Até vi uma igreja ao fundo.


Por agora eu sou inverno

25.3.15
Gosto tanto do próximo do próximo livro que não o consigo terminar. Não estou preparado para acabar com ele. Não quero sair desta incapacidade de o fazer. Evito pegar nele. Invento motivos. Vejo documentários de bandas dos anos oitenta. Levanto-me, vou à cozinha. Encontro sempre que fazer no computador, que não o caminho da pasta onde já morreram uns quantos capítulos e onde, mais dia menos dia, morrerá o resto da história.

"Ao homem que lhe pergunta pela escrita ela responde sempre com o futuro, porque só no futuro as suas palavras estão a salvo, ainda não aconteceram", in Appelbaum.

Por agora sou como o piano do Ólafur Arnalds. Por agora eu sou inverno.


AddThis